Aprender com as tragédias é uma das principais características da resiliência humana. A China, onde se iniciou a pandemia do novo coronavirus, passou por uma guerra viral ainda maior no início do século XX, e quando a nova enfermidade parecia buscar ferir onde um dia o sangue jorrou descontroladamente, o povo chinês tomou uma decisão crucial: a vida das pessoas estaria acima de qualquer outro interesse.
Com o crescimento assíduo de uma doença completamente desconhecida, o presidente Xi Jinping começou imediatamente as medidas de isolamento social, tomadas de maneira tardia nos países mais atingidos da Europa - por exemplo. Uma das ações fundamentais do governo chinês foi o fechamento total da cidade de Wuhan, onde tudo começou no fim de 2019. Com isso, foi possível localizar e entender melhor de onde vinham os infectados e controlar a passagem de civis nas fronteiras. Os passos seguintes incluíram a construção de quase 10 mil novos leitos hospitalares em um espaço de tempo curtíssimo e ações para manutenção da quarentena sem prejudicar a economia das famílias. Tudo isso em um país com quase 1,5 bilhão de habitantes, contando com o mínimo de informação e tendo seu governo acusado por alguns de terem criado o referido vírus para reduzir a superpopulação. Os erros, que meses mais tarde os países ocidentais cometeriam, passaram longe do território da pátria mais populosa do planeta.
A MAIOR DE TODAS
Uma gripe que sofreu grande mutação no início dos anos de 1900, foi a responsável pela maior catástrofe epidemiológica da história da China. Na época, o país tinha aproximadamente 472 milhões de habitantes, sendo que 86 milhões foram infectados (18,2% da população) e mais de 30 milhões morreram (35% dos infectados). Fazendo caminho inverso ao coronavírus, a gripe H1N1 nasceu no Ocidente, mais precisamente no estado do Kansas, Estados Unidos. Chegou na Europa pelas fronteiras da França, levada pelos soldados norte-americanos. Os países participantes da primeira guerra mundial ocultaram as informações relacionadas à nova e assassina gripe, e coube a Espanha alertar o mundo sobre o que estava por vir. Por esse motivo, a primeira versão da gripe H1N1 ganhou o codinome que o tornou famosa e temida em todo o mundo: Gripe Espanhola.
O presidente chinês na época, Yuan Shikai, precisou utilizar espaços inocupados pertencentes ao governo para enterrar boa parte dos milhões de mortos que não puderam, sequer, receber um sepultamento descente. E foi essa triste lembrança que transformou a China no grande exemplo de enfrentamento ao Covid-19, pois seria inaceitável haverem circunstâncias parecidas um século depois da pandemia da Gripe Espanhola.
País onde a Gripe H1N1 teve seu ponto de partida em 1918, os Estados Unidos parecem ter esquecido de abrir os livros de história no início da atual pandemia. Entre 1918 e 1920 os americanos tiveram quase 35 milhões de habitantes infectados pela Gripe Espanhola, mais de 28% da população do país na época, e quase 675 mil mortos. Em 2020, com um egocêntrico e arrogante milionário brincando de ser presidente, os todo-poderosos norte-americanos conseguiram a proeza de, mesmo com menos de 1/3 da população chinesa, ter quase três vezes mais casos de coronavírus do que os supostos criadores da doença. São 313 mil casos confirmados de Covid-19 nos Estados Unidos, com quase 8.600 mortes; um absurdo explicado pela demora de Donald Trump em tomar atitudes efetivas de isolamento social para evitar circulação do vírus. Os americanos estão no topo da lista em número de infectados.
China 1920 Vs China 2020
Claro que levando em consideração a evolução tecnológica entre as duas pandemias, é difícil fazer um comparativo lógico no desempenho do combate às respectivas doenças. No entanto, façamos o apontamento de um importante dado: a China teve um crescimento de mais de 218% no número de habitantes em 100 anos, enquanto os norte-americanos sequer dobraram essa estatística. Com isso, caso a China concentrasse o mesmo percentual de infectados relativo à população obtido pelos EUA, que é de 0,1%, o país teria cerca de 1,5 milhão de casos de Covid-19. O que comprova a efetividade dos chineses no combate à doença e a importância do isolamento social nesse trabalho.
A comparação entre China e Estados Unidos é apenas para que tenhamos um parâmetro atualizado de comparação, pois são as duas principais economias do planeta e, teoricamente, teriam condições similares na contenção da epidemia. Porém, o que queremos trazer aqui é uma visão entre as Chinas do início do XX e XXI; onde a primeira aceitou a derrota por motivos de despreparo, e a outra, em contrapartida, mostrou que aprendeu a lição e vestiu-se de responsabilidade e respeito à vida para passar com o mínimo de perdas possíveis por uma nova crise epidemiológica.
COMPARATIVO:
Algumas pessoas vão creditar a eficácia chinesa no combate ao novo coronavírus na teoria da conspiração de que os mesmos teriam o criado em laboratório e, por isso, sabiam exatamente como contê-lo. Contudo, na busca de evitar a Fake News, nós do 'Porém, Depende!' nos baseamos apenas em informações oficiais.
*Os dados estatísticos sobre o novo Coronavírus expostos no texto eram atuais até a publicação deste artigo.
Fonte: ElPaís.com e Wikipédia.




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