Dando sequência às dicas de boas séries espanholas, apresentamos hoje àquela que dispensa apresentações: La Casa de Papel. A obra de Àlex Pina com certeza é a mais aclamada das quatro lembradas aqui. Com um alcance absurdo, a produção conquistou milhões de fãs no mundo inteiro na mesma proporção em que produz caminhões de dinheiro para seus criadores. Originalmente lançada pelo canal espanhol Antena 3, a série foi comprada pela Netflix em 2018, sendo introduzida no catálogo de originais da plataforma. Para se ter uma ideia, a empresa lançou juntamente com a Parte 4 um documentário sobre a série.' La Casa de Papel, El Fenómeno', acompanha as viagens de lançamento feitas pelo elenco evidenciando em todo o momento a extensão do alcance do trabalho.
HISTÓRIA
Um grupo de delinquentes em decadência é recrutado por um professor universitário cujo o nome se resume a sua atividade profissional até então. Embasado por um plano forjado anos antes, o tal homem precisa de pessoas que não tenham nada a perder, além da vontade incontrolável de ganhar muito dinheiro. A primeira a se juntar ao bando é a insana Silene Oliveira, fugitiva da justiça e ex-presidiaria. A bela é quem faz o telespectador entender a primera regra do Professor: nada de nomes! Quanto menos souberem, melhor. Silene, então, é batizada com a graça da capital japonesa, Tóquio. A moça é determinada, forte, insanamente altruísta e acima de tudo, autodestrutiva ao extremo. Depois de Tóquio chegam Rio, Nairóbi, Berlín, Helsinque, Moscou e Denver; astros da Parte 1.
A missão é aparentemente simples: cometer um assalto. Para o nível dos recrutas o objetivo se mostra ligeiramente tranquilo, mas como tudo o quê deixamos de saber superficialmente, as complexidades aparecem na divulgação do 'quando e onde'. O Professor tinha em mente um roubo diferente e estruturado, situações distintas das quais àqueles homens e mulheres estavam acostumados. O plano desenhava tudo: resolução de crise, confrontos com a polícia, cuidados com a saúde dos bandidos e reféns e claro, a fuga. Os contratempos apareceriam o tempo todo, e o Professor sabia - de quase tudo. Conforme as relações entre os assaltantes e reféns se estreitam, sentimentos, experiências e histórias do passado são divididas por eles, tornando decisões previstas como fáceis, em grandes contornos da trama. Tudo isso nada mais é do que a pura representação humana refletida em momentos de geniais fantasias cinematográficas.
Apesar de violenta e fora de lei em grande parte do tempo, La Casa de Papel é um poema em movimento. As falas, a trilha sonora, as atuações... até para um leigo em produção audio-visual como este que vos escreve, é inevitável perceber o romantismo visceral e brilhante inserido na história. O desafio ao sistema é outro ponto que inspira quem assiste. A humanidade chegou ao século XXI se achando livre por estar em um planeta cujo os países se dizem em sua maioria viver em regime de democracia, um lindo engano de compreensão. Trabalhamos para sustentar governos e sequer nos reservam o direito de escolher comandantes para cargos cruciais da sociedade, apesar de pagarnos o salário dos que tomam essas decisões. Compramos nossas casas e carros, mas nunca somos 100% proprietários, carregando como sócios os leões fazendeiros. Criamos nossos filhos, e se não entregássemos nossas vidas para outras pessoas, não teríamos condições de sustenta-los. La Casa de Papel transmite um importante recado aos que pensam dominar o mundo: esse lugar é de todos nós, pois fizemos parte dele e tudo o que é produzido aqui deveria ser entregue aos que trabalham pela existência funcional de tudo isso. As leis são prerrogativas que legitimam desmandos sociais visando o bem de uma minoria imprecisa, e com um pouco de sensibilidade é possível entender o sinal.
Por todos os motivos supracitados, não dá para não assistir La Casa de Papel. Sua profundidade é incomparável, fazendo com que muitos se questionem o porquê de ela não figurar no topo da nossa lista. A resposta será dada no próximo artigo. Enquanto isso, se você pertence ao grupo de pessoas que ainda não apreciou a execução do plano quase perfeito do Professor, deixamos aqui nossa preciosa dica.
Elenco citado no texto: Álvaro Morte (Professor), Úrsula Corberó (Toquio), Miguel Herrán (Rio), Alba Flores (Nairóbi), Pedro Alonso (Berlín), Darko Peric (Helsinque), Paco Tous (Moscou) e Jaime Lorente (Denver)

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