O fim dos anos noventa não foram fáceis para os brasileiros, tendo que conviver com uma inflação de quase 13%, os cidadãos viam seus salários se esvaindo sem que pudessem sequer pagar as contas. A eleição de 2002, portanto, era a grande oportunidade de mudança para o país, e foi nessa linha que o Partido dos Trabalhadores direcionou sua campanha. Após três corridas eleitorais perdidas para Fernando Collor (1989) Fernando Henrique Cardoso (1994 e 1998), Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito, em 27 de outubro de 2002, o 35° presidente do Brasil. Sua vitória por si só já representava um feito histórico, pois tratava-se do primeiro operário a se tornar Presidente da República. 

Lula se tornou um símbolo da luta contra a pobreza e a desigualdade, assim como uma espécie astro pop do executivo a nível mundial. Sua política externa, por vezes tão criticada por opositores por destinar milhões de reais para países governados por figuras controversas, fizeram do pernambucano a imagem de uma evolução internacional sem precedentes no Brasil. Podemos gostar ou detestar o ex-chefe do executivo, mas negar seus feitos é uma heresia. Mesmo assim, na última semana ouvimos uma visão interessante sobre os 13 anos de governo do PT, e vamos hoje tentar encontrar a nossa conclusão sobre o tema. 

Em entrevista ao perfil do Instagram 'Quebrando o Tabu', o ator Pedro Cardoso, o Agostinho de 'A Grande Família', afirmou que o governo petista deixou "um legado ambíguo para o país", pois ao mesmo tempo em que muitas coisas boas foram feitas, outras muito ruins mancharam a administração. O ator acredita ainda que a equipe de campanha do atual presidente utilizou muito bem esse lado ruim, ajudando que parte da população creditasse apenas ao Partido dos Trabalhadores toda a corrupção existente no Brasil, fazendo os eleitores usarem o argumento vazio de que "não votariam no PT" para escolher o candidato com mais possibilidades de vitória. A teoria é interessante, faz sentido, porém mesmo assim pende de uma avaliação mais profunda para que seja aceita como verdade. 

É fato que coisas importantes foram criadas e trabalhadas com muita eficácia pelo governo Lula, um bom exemplo é a inflação, que em 2002 chegou a 12,53% e em 2010, último ano de mandato do petista, foi de 5,6%. O PIB também teve números impressionantes durante os 8 anos de governo do senhor Luiz Inácio, tendo um crescimento acumulado de 32%, média de 4% ao ano. Para termos uma ideia, o governo anterior, o FHC, registrou um crescimento médio de 2,3%; número considerado bom por especialistas. A politica econômica apresentada pelo governo do PT fez com que o país pouco sentisse a crise de 2008, sendo inclusive elogiado por chefes de nações do primeiro mundo, como Alemanha, França e Estados Unidos. Tudo isso começou com a liquidação antecipada das dívidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), contribuindo assim para o aumento da confiança do mercado mundial. Foi nessa época que a taxa de desemprego chegou a 5,6%, o menor índice já registrado até então. 

Os programas sociais também fizeram do governo Lula um exemplo positivo e assim reconhecido por vários países. Em pesquisa divulgada em 2010, o Banco Internacional para Desenvolvimento (Bird) constatou que o Brasil havia conseguido reduzir a taxa de pobreza de 41% para 25,6%, e ainda que tenha levado em conta os esforços feitos pelos governos anteriores, creditou o sucesso especialmente ao governo vigente naquele momento. O Bolsa Família, que substituiu o Bolsa escola de FHC, atende mais de 12 milhões de pessoas, sete milhões a mais do que o projeto original. O programa é considerado um dos maiores de combate à pobreza já criado no mundo, segundo a britânica "The economist".  Com essas e outras ações pontuais, entre 2003 e 2010, mais de 20 milhões de pessoas deixaram a extrema pobreza no Brasil, um número indiscutível e que precisa ser aplaudido. 

As demais áreas tiveram ações consideradas boas e outras nem tanto, como a educação, que apesar de contar com a criação de programas importantes como o ProUni e o Fies, foi um setor sempre muito criticado pelo investimento pouco controlado. O cenário é parecido na Saúde, onde a aplicação de verba passou longe do que o país precisava. Na habitação, entretanto, o governo deu show com a criação em 2009 do programa "Minha casa, minha vida", que possibilitou a compra de casa própria por mais de 14 milhões de brasileiros. A questão é que as classes mais humildes foram mais beneficiadas, o que muito desagradou a direita política do país. Mas esse, de fato, nem de longe representa o legado negativo do PT. E quando falo PT sem citar a administração Dilma Rouseff, é porque consideramos a ex-presidenta um efeito colateral sem maiores efeitos e com baixo impacto histórico, tendo pouca participação no que foi feito de bom pelo partido e, por consequência, pouca culpa nos erros cometidos. 

A parte negativa infelizmente compromete todo crescimento obtido, causando prejuízos que, segundo especialistas, podem levar  uma década até que sejam recuperados. O escândalo do mensalão, denunciado pelo deputado Roberto Jeferson (PDT) e que tinha como objetivo a compra de votos no congresso e desvio de dinheiro para financiamento de campanha política por meio de caixa "2", foi considerado um dos maiores esquemas de corrupção da história política do país, sendo também a pior crise enfrentada pelo ex-presidente durante seu mandato. O uso inadequado - para dizer o mínimo - de cartões corporativos em 2008 foi outra situação embaraçosa, pois até a filha de Lula estava envolvida. Além disso, teve o "caso Eunice Guerra", a questão mal explicada dos passaportes diplomáticos para os filhos, o "escândalo dos bingos" e, por fim, o "petrolão"; descoberto pela Lava Jato anos depois do término de mandato, mas que claramente era de conhecimento do ex-presidente. Os roubos aos cofres públicos chegaram a 80 bilhões de reais, número assustador. Sem contar o superfaturamento das obras públicas em parceria com grandes empreiteiras, responsável pela movimentação de bilhões de reais. A situação, inclusive, era muito semelhante a vivida hoje com o presidente Jair Bolsonaro e os filhos; as coisas aconteciam embaixo do nariz do chefe máximo da nação e ele "nada via ou sabia".

Considerando tudo o que citamos aqui, podemos concluir que o legado deixado pode ser enxergado de maneiras diferentes, mas os danos foram sensivelmente mais relevantes. Claro, falando de um modo geral, visando resultados que fazem diferença para a grande massa. Só criticar não é o caminho, pois existem bons exemplos de governo que podem ser usados, se aprimorados. E claro, só elogiar é uma imensa burrice, pois tudo o que foi feito por debaixo dos panos de forma ilícita correspondem a feridas profundas no âmbito econômico e social. Relembrando uma das falas de Pedro Cardoso na entrevista supracitada, "O governo do PT usou o pretexto de que para atingir o crescimento esperado, era preciso fazer a manutenção da corrupção vigente", afirmou. De um lado está um crescimento de 32% em oito anos, do outro, danos profundos aos cofres públicos e a falência de instituições importantes para o país. E agora?  

O governo Luiz Inácio Lula da Silva teve aprovação recorde de 80%, segundo pesquisa Data Folha. Mas afinal, qual o preço dos 80%?