A minissérie "Olhos que condenam", criada pela cineasta e roteirista Ava Mary DuVarney, representa muito mais do que uma boa dica de entretenimento, vai além, é uma denúncia internacional e um grito sedento por justiça. A trama conta o passo a passo do drama vivido pelos jovens Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise, quatro jovens negros e um latino, vítimas de uma das maiores injustiças já cometidas pelo sistema judiciário norte-americano.
O ataque e estupro sofrido pela jovem Trisha Meili no Central Park, em Nova York, no dia 19 de abril de 1989, era um caso a ser resolvido rapidamente pela polícia da cidade. Instigados e assim orientados pela promotora Linda Fairstein, os investigadores não pouparam esforços para produzir provas contra os meninos, que prestaram depoimento durante horas na noite do acontecido e sem a supervisão dos pais ou advogados. Presos, julgados e condenados, eles cumpriram penas que variaram entre 5 e 13 anos, perdendo assim boa parte de suas vidas em decorrência de um crime que não cometeram. Assim, a equipe que cuidou da ocorrência ganhou notoriedade pela velocidade de resolução, algo incomum em se tratando de um crime tão complexo e violento.
Como aconteceu?
Os meninos passeavam no parque na noite de 19 abril de 1989, quando uma série de ataques e roubos começaram e se intensificaram com o passar das horas. A polícia foi acionada e ao chegar no local dispersou vários grupos e prendeu cerca de 30 pessoas, entre elas, os cinco jovens citados acima. Por volta da uma e meia da manhã, Meili foi encontrada desacordada e muito machucada. Exames de corpo de delito foram feitos, constatando assim que ela havia sofrido espancamento, estupro e abuso sexual; uma barbarie sem tamanho. Ela ficou em coma durante doze dias, levando mais de três anos até recuperar a normalidade de alguns movimentos. Contudo, a única prova contra os cinco garotos eram as confissões obtidas pela polícia sem a presença de responsáveis maiores de idade, conduta ilegal segundo a legislação dos EUA. A produção mostra detalhes sobre a caça às bruxas que fez com que adultos brutalizassem adolescentes para que confessassem o que não haviam feito, seguido de agressões morais nos meses seguintes, patrocinadas pela direita política do país, antes e depois do julgamento.
Um dos homens que defendeu duramente a condenação dos cinco '5 do Central Park' - como ficaram conhecidos -, foi o então magnata imobiliário Donald Trump; hoje presidente da república. Trump pagou cerca 83 mil dólares em anúncios de página inteira em todos os jornais de Nova York, onde pedia a volta da pena de morte e que a sociedade expressasse ódio aos réus: “É mais do que raiva... É ódio, e eu quero que a sociedade os odeie.” - publicou. Mesmo depois de a verdade vir à tona, Trump se recusou a pedir desculpas aos injustiçados, deixando claro o ato de racismo cometido anos antes.
A minissérie, produzida e lançada pela Netflix em maio de 2019, é uma ótima pedida para um momento onde o mundo pede respeito e o fim do preconceito racial. Vidas negras importam. Vidas brancas importam. Todas as vidas devem ser tratadas com igualdade, sem levar em conta a cor da pele, o credo ou qualquer outra característica que nos diferencie estética ou ideologicamente.
Não deixe de destrinchar esse absurdo fielmente retratado por "Olhos que Condenam". Um tapa na cara da sociedade e uma lembrança do quão desigual era o mundo em que vivíamos em 1989, e ainda vivemos no século XXI.


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