O mundo ainda vive sob os fantasmas do preconceito racial, de genero e social, tendo que lidar com situações inaceitáveis para o século XXI. Em 2020, pra piorar, perdemos algumas figuras importantes para a evolução da humanidade. Um deles foi o músico norte-americano Richard Wayne Penniman, de 87 anos, vítima de vários problemas de saúde. Little Richard, como ficou conhecido, é considerado um dos criadores do Rock and Roll, e ao lado de nomes como Elvis Presley, Chuck Barry e Jerry Lee Lews, revolucionou a história da música. 

Nascido em Macon, Geórgia (EUA), Richard cresceu em uma família extremamente religiosa, e foi na música gospel que o astro deu seus primeiros passos na carreira. A família Penniman era profundamente envolvida com os projetos da comunidade cristã da cidade, inclusive, formou um grupo musical chamado "The Penniman Singers", responsável pela trilha sonora dos cultos. Richard foi apelidado de "War hawk" (Falcão de guerra), pela maneira alta e gritada de cantar. Seu estilo único chamou a atenção de Rosetta Tharpe, artista preferida de Little Richard, que o convidou para cantar com ela em 1945, em apresentação no estado da Geórgia. Nesse dia, Rosetta doou ao jovem um alto valor em dinheiro para que o mesmo investisse na carreira, porém, com apenas 17 anos de idade, o menino teve que ajudar a família e ofereceu o valor ao pai, Walter Penniman. A verdade é que Richard não teria escolha, pois o pai, pastor e extremamente conservador, não aceitava e muito menos apoiava a carreira do filho fora da doutrina da igreja, motivo de vários conflitos entre eles. Em 1947, quando buscava oportunidades para gravar suas músicas, foi expulso de casa e acusado de ser gay pelo pai. Em 1952, em meio a uma de suas gravações, Walter levou um tiro e morreu. Depois do acontecido, Richard chegou a desistir da música e trabalhar como lavador de pratos. 

Apesar de muito conhecido na região e sendo asediado por vários agentes durante o fim da década de 1940, foi apenas em 1955 que Little Richard deslanchou na indústria da música. Seu estilo extravagante e sempre muito à frente de seu tempo o transformaram em um fenômeno rapidamente. Isso aconteceu após o lançamento do single Tutti Frutti, sucesso instantâneo por sua singularidade representada especialmente pela famosa introdução a capela,"A-wop-bop-a-loo-lop-a-lop-bam-boom!". A letra da música nada mais era do que uma carta de amor gay, por sinal, irresistivelmente chocante. Um ano depois lançou "Long Tall Sally", que fazia menção a uma drag queen, mais um chute certeiro no traseiro da sociedade. Sua sonoridade uniu brancos e negros em shows épicos nos Estados Unidos e no Reino Unido, e não parou por aí. Em um intervalo de 3 anos, Little Richard emplacou mais de 15 canções entre as mais tocadas nos dois países, tornando-se uma lenda viva e ganhando adoradores a nível mundial. O ritmo foi considerado a primeira música para adolescentes e uma arma forte no combate ao preconceito racial. Agora você imagina: negro, gay, anos 50... se em 2020 as coisas não são fáceis, imagina naquele tempo, onde negros eram enforcados e amarrados em arvores. Sendo assim, o que fariam com um preto gay? Melhor nem pensar. 

Little Richard chocou os fãs ao entrar no palco com rímel e batom em 1956, o que somada à extrema agressividade durante as performances fizeram do rock and roll e de Richard símbolos da resistência ao sistema; algo enfraquecido mas vivo nos dias de hoje. Mesmo espalhando sua música e sua genialidade pelo mundo, o músico sempre conviveu com um imenso conflito interno, pois considerava o que cantava "música do Diabo" e errado perante à Deus. Além da música e a extravagancia, Richard admitiu em determinado momento o envolvimento com voyeurismo, permitindo que homens fizessem sexo no banco de trás de seu carro enquanto ele assistia. Aliás, chegou a ser preso duas vezes por conduta indecente. Em 1957 durante uma turnê na Austrália, confundiu uma bola de fogo que cortava os céus com um sinal de Deus, e resolveu abandonar a carreira e virar pastor. Na verdade, o tal sinal era apenas o Satélite Sputnik-1. Em 1962, Little Richard abandonaria a vida religiosa e voltaria aos palcos e ao rock. 

Depois de todos esses acontecimentos entre 1955 e 1962, Richard dedicou-se exclusivamente à carreira e ao combate a todo tipo preconceito. Chegou a falar sobre homossexualidade em entrevistas no fim dos anos 60, acabou recebendo várias ameaças vindas de membros da famosa seita supremacista Ku Klux Klan, e passou a evitar falar publicamente sobre o tema. Voltou a manifestar-se fortemente na famosa entrevista dada ao cineasta John Waters em 1987, quando afirmou: "Eu sou o gay fundador. Fui eu que comecei tudo, contando tudo ao mundo". Em meio a álbuns e singles de sucesso, seguiu defendendo a igualdade de genero, como em 1995, quando proferiu a famosa frase: "Tenho sido gay por toda a minha vida", em resposta a um questionamento sobre as dificuldades enfrentadas por homossexuais na sociedade americana. Em 2013 encerrou a carreira após 68 anos e 23 álbuns lançados, além de uma série de barreiras ultrapassadas.  

Sua música, seus posicionamentos claros e genuinamente críticos o tornaram imortal, nem o tumor ósseo que o levou embora no último dia 9 de maio de 2020 podem apagar suas marcas no mundo. Claro, tinha defeitos como qualquer pessoa, era exagerado e causou alguns problemas com seu jeito espalhafatoso de ser. Normal, quem nunca? Contudo, seu legado é eterno e jamais será esquecido. Faça como ele, quebre as velhas barreiras, tire da cabeça aquela ideia de que os Beatles e Elvis Presley foram os inventores do rock, na verdade, eles são apenas seguidores do inventor. 

A-wop-bop-a-loo-lop-a-lop-bam-boom!